Domingo, 15 de Outubro de 2006

Babilônia homenageia Bob Marley!!!

 

Banco da Jamaica lança moeda com figura de Bob Marley

Leio por acaso, num jornal espanhol, "La Vanguardia", que o governo jamaicano vai lançar moedas com a efígie de Bob Marley. Poucas moedas, em ouro, com a cara e as tranças do rei do reggae. Peças raras e caras. E daqui fico pensando: deu Babilônia. O garçom de costeleta e o sistema da Babilônia, diria o velho Oswald de Andrade, nosso pai canibal.

Me explico. Na poesia da canção popular jamaicana mais recente, nas letras do reggae de Bob Marley e companheiros, a Bíblia é "the Book" - o Livro. O criador jamaicano de reggae, salvo exceções, é um "rastaman". Um adepto do chamado "rastafarismo". E este é a essência daquele gênero poético-musical que tanto sucesso fez e faz no mundo, Brasil inclusive - e o Maranhão que o diga.

Mas o que é mesmo o rastafarismo?

Bem, assim como aconteceu nos Estados Unidos, a Bíblia, o Livro do colonizador branco, também se enraizou na população negromestiça da Jamaica. Especialmente, depois do fim do regime escravista.

Só que, em meio à negrada local (e espero que ninguém vá considerar a expressão preconceituosa, segundo o atual besteirol do "politicamente correto"; falamos normal e tranqüilamente assim na Bahia - e a palavra "negrada" aparece, aliás, numa composição histórica do Olodum), o texto bíblico foi subvertido de forma extrema, gerando uma inesperada e algo insólita "teologia da libertação".

Vejamos. Deus (Jah, Jeová) é negro. Cristo, também. Sua última encarnação, para os rastas, foi Selassié, antigo imperador da Etiópia, a verdadeira pátria dos negros, mesmo na diáspora atlântica.

"Back to Africa" era - não sei se ainda é - o programa rasta, situando o paraíso celeste num lugar concreto, realmente existente.

E se o preto é o bem e o branco é o mal, o Deus branco é o Demônio, aqui representado pelo papa, cujo objetivo último é dominar o planeta por meio de países ou personalidades católicas, como tentou no Vietnã, através de John Kennedy.

Como a Bíblia é "opera aperta", os rastas relêem, reciclam e adaptam à vontade o seu fabulário. Dizem-se os verdadeiros judeus, presos no "cativeiro da Babilônia". Vale dizer, na moderna sociedade industrial, tecno-consumista.

A saída ou salvação dos negros passa, então, pela destruição do sistema de Babilônia. E pelo seu regresso à África, refazendo assim o êxodo bíblico.

A Bíblia define até mesmo o lugar do mulato no cosmo e no mundo. O mulato (e Bob Marley era mulato, independentemente do que dissesse de si mesmo) surge como bastardo de Eva (a negra) e da serpente (o branco), num intercurso sexual que contaminou o paraíso, provocando a fúria divina.

Nasce daí, aliás, o velho antifeminismo rastari, reforçado pela narrativa de Sansão (um rasta, é claro) traído por Dalila e pelo fato de, ainda hoje, mulheres negras gerarem filhos "impuros", isto é, mestiços. É por isso que a mulher não é bem-vinda ao rito sagrado da maconha - por sinal, uma planta do Rei Salomão.

Esta versão da Bíblia, que deve desnortear evangélicos e católicos, é forma e conteúdo de toda uma literatura jamaicana. E da poesia do reggae. Ouçam, por exemplo, a "Redemption Song", de Bob Marley. Não foi por outro motivo que, certa vez, um jornalista inglês, comentando um show de Marley, sugeriu que o evento mais parecia um "revival" pentecostalista do que um espetáculo de rock.

Mas tudo isso me ocorreu não a propósito de música ou religião. E sim das moedas com o rosto de Marley. Pois é: moedas. E de ouro. É a homenagem do sistema de Babilônia ao célebre e suingado rei do reggae. Não sei o que os rastas jamaicanos estão pensando sobre o assunto. Mesmo porque Marley nunca virou as costas ao deus-mercado babilônico. Muito pelo contrário.

Será que alguém na Jamaica ainda pensa, hoje, em "back to Africa"? Nos antigos discursos de Marcus Garvey, que acabou indo soltar o verbo nos EUA, participando da então chamada "Renascença do Harlem"? Não tenho a mínima idéia. Mas a sensação, mesmo à distância, é que, mais uma vez, venceu o sistema de Babilônia.

E, afinal, muito mais do que da Etiópia, Bob Marley foi mesmo o verdadeiro embaixador da Jamaica no mundo, nas últimas décadas do século que passou.

publicado por edgarasta às 18:50
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